Era dia ainda, eu estava numa pocilga de bar, do lado de cá do balcão. Foi quando aquele cara chegou. Não via o seu rosto, e vinha direto ao balcão... Era um pouco alto, vestia uma roupa preta... não olhava ninguém. Só vinha. – “Eu?”, na hora já tive aquela impressão de que ia rolar merda. – Ele tinha aquela aparência de mal sujeito que agente vê nos filmes ‘western’... “Sabe?” Aquele jeito de ser o cara com quem você não quer topar hoje? – O barman d’outro lado só observando aquele que entrou. O barman trocava o palito de lado na boca... “não que fosse gente fina, sei lá... mas também não era o cara com quem gostaria de topar”.
Pois então, o cara entrou, vinha até ali sem olhar ninguém, sentou do meu lado. E o barman perguntou o que ele ia querer: “O que vai querer”... era um tom como se mandasse o cara foder a própria mãe. E do mesmo modo o cara respondeu: “O que você tem?”.
Eu ali, olhando aquela cena agora tinha certeza da parada com a merda. – “Sabe quando você acha que não tem nada mais a perder?”... então cara, este era eu quando entrei lá naquela tarde. Mas agora não cara, estava todo cagado, temendo pela minha vida. JURO... se tivesse uma chance de não ter entrado lá naquela tarde. Se eu tivesse uma chance pegaria ela e dava o fora dali.
Mas voltando, os dois se encaravam agora... – E eu ali, não olhei para o forasteiro... olhava para o barman, esperava a resposta. – Foi quando o barman abriu a boca e ainda sério falou: “Tenho cerveja, vai querer?”... – Eu tentei não olhar, mas já não tinha controle dos meus sentidos... e quando olhei a cara do forasteiro... ele não esboçava nenhuma reação. Foi aí que ainda com o copo na mão pulei fora da merda da banqueta... o forasteiro trazia o maior trabuco que mão que eu já tinha visto. Pôs na cara do barman. – Eu ainda me afastando, de pé, gelado e suando, com o braço molhado na cerveja... – DOIS TIROS! – Agora também respingado do sangue do barman. – Logo em seguida ele vira na minha direção. – UMA CARGA DE TIROS! – Eu, vôo ao chão, de baixo duma mesa, entre as cadeiras, tentando me proteger do fim do mundo. Outro cara no fundo do bar tinha sacado uma pistola e estavam os dois destruindo o local...
Lembro até hoje a música que tocava enquanto tudo ia pelos ares. – Literalmente pelos ares... – Era “Whitesnake, looking for love”. Quando terminaram o forasteiro se foi. – Não me notou ali abaixo do chão... segurando aquele copo de cerveja. E lhe digo camarada... daquele dia miserável sabia que teria o meu próprio bar... ter para esperar pelo forasteiro que estourou aquela merda abaixo ao som de Whitesnake. Que matou o barman na minha frente, e não me matou. – Para esperar por dias como aquele, onde coisas estranhas e inexplicáveis acontecem ao som de uma balada de rock.
quarta-feira, novembro 26
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Um comentário:
Barmens são grandes observadores da escória humana, ou seja, um personagem com muito material para explorar. O que me irrita é que a maioria dos textos fiquem presos no lado melancólico, do desamor, gosto que você tire o barmen do lance observador, coadjuvante, e o coloque em cena, mesmo que ele se dê mal. Adoooro!
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