quarta-feira, dezembro 10

5.

Era dezembro de 1983 e em poucos meses ela faria aniversário... me lembro bem agora. A conheci por intermédio de uma amiga, Laura, que sempre tivera uma queda por mim. – Eu e Laura já tínhamos saído algumas vezes, mas apesar da beleza, ela não chamava a minha atenção... tinha olhos verdes, cabelos loiros, seios fartos... era comum, não exalava o cheiro de mulher que me deixava doido... o cheiro que Marian exalou. – Conhecera e já saímos, sabia que pela idade em inúmeros paises seria preso, noutros tantos seria considerado estupro, em alguns, executado. Não ligava, queria me arriscar naquele corpo de menina. – Era bela de seu jeito, pequena, cabelos claros ao sol, pele branca, piercing no nariz... seria comum, mas Marian tinha um sorriso que vi em poucas bocas... e como ria das coisas que eu falava. Isto me fazia bem. – Na época “eu” não era o mesmo de agora.
Como havia dito, era 1983, eu tinha vinte anos, cursava Direito... estava infeliz. Era como um cachorro doido amarrado à coleira, mordia e rosnava, estava preso. “Coisas fazem isto com coisas”... faculdade e família faziam à mim. Tinha uma boa educação, tinha senso critico, tinha futuro... e tinha aquela “hybris” na mente, algo que dizia para mim perseguir os Deuses. – Sim, eu já era ateu antes de tudo isto acontecer. Fato, é que eu também era um quarto de psicoses esperando ser aberto e explodir. Tudo me indicava como isto... como um suicida em potencial, como um psicopata ou um sociopata caótico. Tinha a “genética” para isto... alguns poderiam dizer dom, eu sabia de que se tratava realmente. E o cachorro foi insane uivando enquanto eu sentia que me faltava algo... enquanto sentia que as coisas me sufocavam, que as moralidades e responsabilidades de uma vida em sociedade me seriam demais e me forçariam a estourar os miolos um dia... – “De que adiantaria conhecer Marx, Hegel, Rousseau se a terra iria comer esta carne podre um dia?”, “que vantagens teria neste tipo de existência?”, queria espaço para os prazeres, queria espaço para o que hoje chamam de “Hedonismo”... então... “niilista por um instante, e pelo resto o que mais pudesse ser; se sobrevivesse para ser”. Eu sempre olhava ao mar na esperança de um dia estar embarcado sem destino, sem relação com os outros, sem limites, “sem leis” ou normas sociais. – Está era minha hybris... minha ganância que derrubaria os deuses e faria eles ansiarem por mim. – Queria experimentar o mundo sem ter que cultivar laços, sem dividir nada com alguém ou ao menos ter que ocupar um espaço nesta existência pífia e cujas previdências se fazem arroios à vida. – “De que valeria uma longa existência em pura agonia, se poderia ter uma curta afogada em prazeres?” – Assim, também sabia que minha expectativa de vida cairia com a liberdade de viver o hoje sem escolher o dia de amanhã... e metade desta expectativa já tinha se esvaído...
Mas, voltando um pouco mais na minha história, havia conhecido Marian. – Estávamos namorando quando dezembro bateu a porta. Eu, ainda mordia a coleira... com ela ao meu lado, talvez menos que o usual... meu cachorro doido se acalmava... ela me fazia bem. – Na época, como universitário só conhecia estágios, escritórios, papel e teoria sobre a vida... nada mais. A faculdade tinha entrado em época de férias e eu procurara emprego até cair no “La gruta”...

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