Passaram-se algumas horas desde o incidente entre Ieltsin e Deus... – Como dizia... “não devem ser trocadas muitas palavras entre o barman e seus clientes”. – No Fly três pessoas (comigo na contagem), mas logo os habituais começariam a chegar. Não tinha relógio na parede, pois os clientes saberiam a hora de ir, então olhei do pulso à porta e agora se via o sol das seis horas, era o fim da tarde em meio aos prédios, e mais belo que ao mar talvez. No fundo do balcão, próximo ao banheiro, um corretor de imóveis divorciado; à frente das torneiras de cerveja um outro rato de bar pouco ébrio para compartilhar a sua história. – Não que me importasse, como havia dito, devia me limitar às atitudes da função; falar pouco, limitar-se a alguns sorrisos, sim’s e não’s. Um barman já falaria demais ao perguntar... “o Martini deve ser batido ou mexido?”.
Servia uma cerveja ao corretor; era uma cerveja artesanal de malte e trigo, clara, gelada. No diskplayer tocava uma balada acústica do “U2”, acho que era “One”, quando ela entrou... – Cabelos curtos, castanhos claros, óculos, pele branca, usava um avental de algum lugar... foi quando se aproximou que percebi, era uma das meninas que trabalhavam na padaria que tinha aqui próximo, na esquina. Tinha um belo rosto mesmo. “Prosper Mérimée” havia dito que uma mulher na Espanha para ser considerada bela teria de ter “trinta de si”... ela com certeza teria trinta de si, pois hoje pude compreender o que quis dizer ele em “Carmem” – Havia aproximado do balcão com uma nota de 50 pratas... queria trocados em notas de 10, e eu estava cheio de trocados, mas não havia falado nada até que ela comentou:
_ Que belo lugar você tem aqui, não?
A musica ainda me entorpecia... eu retirara as notas da caixa, contava o dinheiro, quando notei estava com a minha mão sobre a dela, dava o troco, mas ainda olhava a mão dela. Eram tão brancas, e ela me olhava quando lembrei de responder:
_ Podia ser melhor... mas não reclamo.
Sorri ao fim disto... ela riu também, agradeceu e seguiu... foi pela mesma porta que entrou. – Os dois observadores que nos rodeavam talvez perceberam que havia falado mais do que fizera com qualquer um ali em muito tempo. – O bar é um local, digo, em sua maioria, de observadores solitários. Há quem venha para procurar companhia, salvar suas magoas ou afogá-las num copo. Mas o bar é estritamente um nicho psicológico que te ensina muito sobre a humanidade, te ensina ainda mais se o foco for às relações sociais e padrões de resposta às situações em que se envolvem... – Eu, fiquei ali. Pouco se passara das 16 horas a música ainda me preenchia e logo os clientes iriam chegar...
quinta-feira, dezembro 4
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