Desde que assumi o lugar muitas coisas mudaram... – Lógico, ainda continuava num espaço mínimo, e sabia que 'caras presos' usufruíam de mais espaço que eu tinha ali. Mas não ligava para tal fato, na verdade gostava, pois usava como desculpa para passar mais tempo fora do que dentro “da gruta”. – Havia tirado aquele liquidificador e estava usando a tomada para colocar um som com alguns vinis que deixava no chão da gruta... as caixas ficavam do lado de fora, apontadas para as cadeiras e mesas que tinha a beira mar. Tinha ainda reformado a tabela de drinks e os preços caíram 20%... de algum modo eu sabia ainda trazer lucro assim. – Fiz uma lista no primeiro dia com coisas que o Rafael deveria comprar para evitar a falência, uns materiais de bar, umas garrafas de bebida, umas frutas frescas (pois não faria drinks com aquelas coisas industrializadas que o gordo usava), mas o mais importante, uma ‘coqueteleira Michael Graves’ que depois eu roubaria dele.
Já no primeiro dia de trabalho decidi que teria que formar uma personalidade... algo para entreter a clientela. Então, decidi pelo figurino, jeans azul tradicional, camisa preta para dentro da calça, as mangas dobradas, sapato e cinto preto, relógio, uma corrente de prata e os óculos de sol... um modelo da “Rayban” com lente de cristal, redondo, raríssimo que levei alguns anos para encontrar. – Eu tinha uma personalidade condizente com o emprego, e um emprego condizente com o meu estilo de vida... - Confesso: “Não gosto de 'trabalho honesto'...” - Nunca tinha realizado por algum tempo condizente para se dizer isto, mas sabia com a certeza de que nunca chegaria próximo a realizar algum na minha vida. - “Por isto tinha ingressado na faculdade”. - Tinha a certeza de que um pouco de estudo livraria-te de ter que realizar um trabalho duro, árduo e sério na vida... mas o tempo passou e já não tinha esta 'certeza' em mente. Sabia que mesmo depois da graduação ainda teria algum trabalho a fazer, se não muito... e isto me desestimulava a continuar.
Bem, estava cursando o meu último ano na faculdade de Direito. Eu tinha adiantado bastante coisa cursando os dois turnos simultaneamente, terminaria com pouco mais da metade do tempo natural de curso... uma façanha que pode enganar muitas pessoas, e a esse passo como eu já devia ter informado a você, talvez até antes do presente momento, “eu não sou a pessoa mais correta”. - Sou amante dos excessos, e apesar de estar fazendo Direito em 3 anos, sou completamente relapso com o curso. Como dizia, sou amante dos vícios e cultivo meus vícios sobre o olhar dos excessos... sobre isto repito “Lincoln” e “William Blake”:
“As pessoas sem vícios tem poucas virtudes...”.
“A estrada do excesso conduz ao palácio da sabedoria...”.
Então, além do cachorro de sandices amarrado a minha mente... tinha esse belo problema com mulheres ,jogo e bebida. - E segundo algumas pessoas próximas a mim na época, a ordem refletia a minha preferencia; eram os meus três vícios preferidos, e a minha razão... apenas eu que não percebia.
[...]
Então estava eu lá, 1983 chegando ao fim... dezembro passava rápido pela janela e eu pela primeira vez atrás do balcão de um bar servindo “merdas liquidas” com nomes tropicais. Tinha uma idéia do que fazia, mas não sabia fazer... - Trabalhava das 6h as 2h, mas sempre fazia umas horas extras por minha conta; enquanto Rafael dormia eu tirava boas gorjetas... com o tempo comecei até a declarar menos do que vendia durante a noite... e logo estaria substituindo as garrafas deles por minhas e não declarando mais nada. O lucro era garantido, tanto para mim quanto para ele. Chegava sempre acompanhado de Marian e saia com alguma conquista momentânea no fim da noite. - Era fato, vendia sorrisos para mulheres casadas e desquitadas, deitava-as ardentes em suas camas enquanto a minha namorada estava em casa dormindo sob o colchão. - Era claro que Marian sabia que eu a traia, tão claro como amanhecer de ressaca na areia da praia... se não fosse, não teria como 'não desconfiar'. Imagino que ela simplesmente aceitava a situação, até pelo fato de que eu precisava de sexo e ela não podia me proporcionar... e creio que gostava demais de mim para me largar.
terça-feira, dezembro 16
Assinar:
Postar comentários (Atom)
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário